O súper selo

(por Marcelo Ferla)

O Lezma Records foi criado em 2014 e tem se destacado entre os agentes que atuam dentro de uma nova formatação do cenário musical. Conceitualmente avesso às fronteiras (estéticas ou geográficas), mas inevitavelmente conectado e reconhecidamente protagonista da cena sulista independente atual, o selo coordenado por Mario Arruda, Leonardo Serafini e Ricardo Giacomoni “atende” no site lezmarecords.com.br e na fanpage LezmaRecords. Mario, Leo e Ricardo também são a Supervão (foto acima), a banda de maior destaque do Lezma. Foi Mario Arruda quem recebeu as perguntas abaixo, coordenou as respostas com os “comparsas” do selo e devolveu para o ANTENNA.


O que é Lezma Records?

É um selo independente que trabalha com bandas autorais de vários locais do Brasil em um âmbito de comunicação digital. Nas nossas festas temos bastante proximidade com artistas locais de diversas plataformas, visuais, DJs de música eletrônica, indie ou brasileira,  performers e outros…

Pq é importante ter um selo em 2017?

O principal problema da arte atualmente é a dificuldade de circulação, tanto em âmbito digital quanto geográfico. Os selos são espécies de pontes entre bandas e públicos de lugares bastante diferentes.

O release da Supervão menciona festivais independentes e raves. O que ambos têm de inspirador?

Os dois movimentos têm sido muito efervescentes, mostrando modos de vida, tipos de comunicação, estética, ética, política. Isso fica evidente nas bandas e DJs que cada um têm construído. Mas é na interseção deles que tem vindo o que a gente mais gosta.

Quais raves, festivais e selos vocês podem citar como influentes?

A festa Mamba Negra e o Festival Bananada são os mais legais. Os selos que mais nos inspiram são a Honey Bomb Records e a PWR Records. Além disso tem o Teto Preto e o BaianaSystem, que estão bem entre DJs e músicos com instrumentos mais “orgânicos”. É o que temos constituído por aqui com a Supervão, o Bolo Fofo Festivalzinho e o Lezma Records.

Qual é o critério pra um artista ser do Lezma? 

Principalmente estar atento aos modos de criação e estética contemporâneos. Saber que um selo independente não serve para marcar shows pra sua banda ou fazer você ganhar grana. Participar de um selo é construir coletivamente, é preciso trocar ideias. Plasticamente achamos legal os artistas terem total independência. Temos bandas do pós-punk ao pop no selo, com referências mais brasileiras, como o Pratagy, de Belém do Pará, e a Mona e Outros Mares, de São Paulo, e com referências mais gringas, como a Gentrificators (foto da capa do site), de Porto Alegre. E tem projetos como o Soundlights (foto a esquerda), que está formando um show bastante experimental e comunicacional ao mesmo tempo, é o que também temos buscado no selo. Além disso, também tem sido bastante importante nos últimos tempos uma dimensão ética. Bandas que apresentam um viés preconceituoso ou intolerante às diferenças não fecham com a nossa proposta.

Questões regionais, como pertencer a determinada cena local, têm relevância? 

Não. Buscamos bandas que se conectem pelos motivos citados acima, não temos a pretensão de constituir uma nova estética para o rock gaúcho. Até por isso temos tocado o grupo Neu Tropicália no Facebook. Nos interessa muito mais o Brasil do que o Estado – somos completamente contrários a essa ideia separatista aqui do Sul…  Mas apesar de estar nos interessando muito a ideia de trabalhar na constituição de uma música brasileira, artistas de outros países também fazem parte da nossa constituição, esperamos que tenhamos algum em breve.

O que é a Supervão pra vocês?

É um espaço em que muitas ideias podem entrar sem medo. Buscamos não ter muitas limitações. Temos músicas com influência de funk carioca, vaporwave, pós-punk, techno, indie rock, e agora estamos trabalhando na inserção da influência do samba e do baião. Sendo assim, a Supervão é o nosso laboratório. Com todas as devidas dimensões, gosto muito de pensar no processo da Tropicália em âmbito brasileiro, que se alimentava de tudo que era contemporâneo na sua época, e no processo dos Beatles na criação de seus discos. Eles colocavam música clássica e movimentos estéticos diversos em seu som, ainda que produzissem música pop.