Os dinheiros da bola

O jovem francês Ousmane Dembélé foi comprado pelo Barcelona por R$ 555 milhões. É o segundo jogador mais caro do mundo. Apesar de investir esta fortuna no atacante de 20 anos, ex-Borussia Dortmund, o clube catalão ainda tem R$ 265 milhões pra gastar, se quiser aproveitar a grana que ganhou da venda do brasileiro Neymar Jr. para o Paris Saint Germain: R$ 820 milhões.

Além de muitos “dinheiros”, este parágrafo cita um brasileiro, um alemão, um espanhol, dois franceses. Tudo por causa da TV. A partir dos anos de 1980, o mundo do futebol, dentro e fora dos gramados, se transformou para sempre a partir do alcance das transmissões pela televisão e do bom uso da globalização.

Entre outros fatores, se constatou que quase todos os lares do Terceiro Mundo tinham um aparelho em casa a partir daquele período, o que contribuiu diretamente para o aumento da popularidade do esporte – e de seus astros.

Do outro lado do oceano, as TVs estatais passaram a ter concorrência dos canais privados, que ofereciam fortunas aos clubes para transmitirem suas partidas. Foi o começo de uma era de números inacreditáveis: na França, a Federação que tinha recebido US$ 100 mil pela transmissão do Campeonato Nacional em 1977 ganhou US$ 100 milhões uma década depois, por conta do Canal Plus, que tinha relações com o PSG.

Na Itália o Primeiro Ministro Berlusconi era dono do Milan e sempre apostou no poder do futebol; na Espanha, no começo dos anos de 1990, a partir de uma intervenção da Telefónica, quase 800 partidas de futebol eram transmitidas em um ano, pouco menos de três por dia; na Alemanha a Adidas investiu fortunas em clubes-empresa; na Inglaterra surgiu a Premier League, em 1992, fechando um ciclo de tragédias nos estádios e inaugurando uma prosperidade financeira jamais vista: hoje os direitos de transmissão da Liga valem € 6,9 bilhões de euros.

Para garantir a audiência, a lógica dos investidores foi fortalecer os clubes com muita grana. Com poder de fogo e o auxílio de uma nova rede internacional de empresários, que passaram a atuar diretamente nos clubes, e da Fifa, que intensificou a promoção de campeonatos mundiais de jovens (sub-15, 17, 18, 20…), os grandes europeus começaram a levar para seus times as maiores e futuras maiores estrelas mundiais do Terceiro Mundo. A presença de brasileiros, argentinos ou africanos garantiu o interesse e aumentou a audiência dos campeonatos europeus nos países de origem dos jovens craques.

Além disso, o intercâmbio de estilos melhorou o desempenho dos jogadores locais. Supertimes garantem grandes jogos que se traduzem em grandes audiências que valem muito dinheiro.

E assim a bola rola, mundo afora, mas sempre na TV mais próxima.