Só a verdade neotropical

(por Marcelo Ferla) 

Meio que Tudo É Um é uma soma, não se engane pelo título. Sua intenção é enfatizar a infinitude das ideias e opiniões e o imprescindível contraditório. Nada é mais salutar nesta época de “grenalização do universo” – e, em especial, deste Brasil eterno de casagrandes-e-senzalas.

A nova coleção de sons lançados ao mesmo tempo (algo que um dia chamamos de álbum), porém, também é o melhor trabalho do Apanhador Só por conta de sua delimitação: apesar da multiplicidade de estímulos instantâneos que a modernidade líquida oferece e o grupo se submeteu em sua recente expedição pelo território nacional, há muita coesão no discurso sonoro. É uma prova de maturidade não se deixar levar pelo sedutor e raso tudo-ao-mesmo-tempo-agora vigente: a imprecisão pode até render surpresas, mas algum senso de direção ainda é fundamental.

O grupo que viajou pelo Brasil pra ampliar sua perspectiva de mundo, o que se reflete claramente nas 15 novas músicas, administrou bem o excesso de informações que consumiu e manteve o foco em suas verdades estéticas, poéticas e políticas. Conciso em sua vastidão de sonoridades, totalmente inserido em seu tempo e espaço, Meio que Tudo É Um é pop e palatável em suas ranhuras, e na mesma medida original mas muito inspirado pelo espírito tropicalista – um período em que os artistas nacionais desbundaram com o nascimento da cultura pop, a partir do rock, e mixaram as velhas verdades regionais com as novidades estrangeiras.

Se é difícil de ser rotulada, a obra de tintas neotropicalistas traz múltiplas influências facilmente identificáveis – e mais uma vez os contraditórios apregoados em seu DNA se revelam. É igualmente óbvio cravar que se trata de uma coleção de boas canções com versos de pura poesia: “Buquês de fogos de artifício/ disparando um agito aflito/ num réveillon inesquecível”; de muita contemporaneidade: “Playstation 1, 2, feijão com arroz / Playstation 3, 4, teus pé de pato / Playstation 1, 2, feijão com arroz / Playstation 3, 4, acho mó barato / R1, R2, sou eu depois / De iPhone 3, 4 / 3, 4!”; de alguma crítica urbana: “Grita, gela, venta, freia, pisca e bufa / Faixa amarela na Consolação / Um monte de gente / Amontada lata / Um monte de gene / Abotinada em si / Artéria pulsante na fila engrossa / Sem conexão com a Liberdade”; de muita consciência política: “Penso em ficar, mas não dá jeito / Que como tudo é movimento / Não tem freio que consiga interromper / Tudo avança e retrocede junto, muito a muito, sem ter fim / Cada um pequenininho, constelado em múltiplas direções.”

É igualmente fácil identificar o forte apelo rítmico do álbum. O violão + a percussão surgem como a nova guitarra desta geração de artistas brasileiros, cuja música nasce de dentro pra fora: os elementos universais é que são acrescidos aos sons nacionais, e não o contrário como em outros tempos. É notório perceber o quanto há de Tom Zé e, sobretudo, Caetano Veloso neste caldo, mais até do suspiro de renovação que ele ofereceu em e Abraçaço, seu “rock clandestino”. Há muito de samba, inclusive um delicioso samba reggae (“Teia” seria “a música de trabalho” certeira em tempos de FMs), e há pós-rock em “Sopro”, e sublimes canções tortas, como “Linda, Louca e Livre”. Meu momento predileto é o casamento do vocal com a música com os climas na melódica “O Creme e o Crime”. (Pelo menos esta semana.)

Meio que Tudo É Um é um trabalho com a marca do Apanhador Só, não se engane pelas influências e semelhanças. Elas só jogam a favor de sua incontrolável evolução.

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