O prazer do encanto

(por Marcelo Ferla)

Tá tudo certo: a mais nova casa de shows de Porto Alegre lotada pra ver a segunda apresentação seguida dos goianos do Carne Seca na cidade, com direito a show extra. Tudo certo no Agulha, o galpão no Quarto Distrito com um assombroso cenário externo industrial de bônus, sem vizinhos pra reclamar do barulho e agradavelmente decorado internamente: não há construção de cena sem lugares assim. E há uma cena em (re)construção.

Tá tudo errado: uma cantora como Salma Jô deveria ser reverenciada para além do circuito independente. Ela catalisa o ambiente, concentra as atenções e seduz a plateia feminina e masculina com a mesma naturalidade com que aborda temas pesados com absoluta sutileza. Sexy sem apelar, empoderada sem forçar, Salma conduz a experiência sonora pop e psicodélica na medida exata, com um sorriso largo pra acompanhar as letras femininas/feministas. Ela destila o prazer de encantar e de cantar bem.

A sonoridade robusta produzida por Maclois Aquino, João Victor Santana, Ricardo Machado e Anderson Maia impressiona e reforça a ideia de maturidade do novíssimo rock brasileiro: ele nunca soou tão contemporâneo, peculiar e virtuoso.

O Carne Doce taí pra provar. E ser provado.

( no Spotify > https://open.spotify.com/artist/01F64hXfIisZbwBf1VCwQT )