A turma imbatível do rock nacional

Nunca, na história deste país, houve uma safra de rock tão boa.

Entre os defensores desta tese estão Ricardo Alexandre, jornalista, crítico musical, autor de dois livros fundamentais sobre a produção nacional de rock nas décadas de 80 e 90, Dias de Luta e Cheguei Bem a Tempo de Ver o Palco Desabar  (ele também escreveu Nem Vem que não Tem – A Vida e o Veneno de Wilson Simonal, pelo qual levou o prêmio Jabuti na categoria Biografia em 2010).

Aproveitamos um post de Ricardo no Facebook, que reverberou muito e ganhou lovers e haters as usual, e batemos um papo com ele sobre o rock feito no Brasil ao longo das décadas. O post, literalmente, diz:

Eu já falei isso algumas vezes, mas quero cravar aqui com a severidade necessária. Nunca, NUNCA, na história do Brasil tivemos uma geração de bandas de pop/rock que contasse, simultaneamente, com uma esquadra com gente do quilate do BaianaSystem, Ventre, Rakta, Rincon Sapiência, E a Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante e, como provou hoje mais uma vez com seu clipe novo, O Terno.

É uma turma imbatível em termos de excelência, originalidade, ataque, execução, em tudo. Poderia citar mais uns quatro ou cinco. Quem diz que o rock brasileiro morreu deveria era tirar a própria pulsação. Só a saudade da própria vida justifica olhar para o passado com tanta nostalgia.

Atualizado em 19/07 às 13:11: Isso porque eu esqueci dos Boogarins (foto na abertura deste txt), do The Baggios e do Far from Alaska. Esqueci de outras também.

Quem seriam estas esquadras no rock brasileiro dos anos 80 e dos anos 90, e em quais quesitos seriam imbatíveis?

Ricardo Alexandre: A geração dos anos 80 não estava preocupada com os mesmos quesitos, ambicionava a paridade de informação. Seu grande objetivo era afirmar pra si de que seria capaz de fazer o mesmo tipo de música, ter os mesmos penteados e as mesmas roupas, e tirar fotos nos mesmos lugares que as bandas internacionais contemporâneas. Isso é facilmente explicável: vínhamos de 20 anos de completo isolamento cultural por causa da ditadura, sem instrumentos musicais, festivais, revistas, e de repente tínhamos uma cultura jovem acontecendo. As grandes bandas, Legião Urbana (foto), Paralamas do Sucesso, Titãs, foram por um bom tempo estações reprodutoras do que ouviam de artistas gringos da new wave e do pós-punk. Quando perceberam isso, rapidamente deram um passo adiante, com músicas como “Faroeste Caboclo” e discos como Selvagem e O Blésq Blom, e assim abriram os caminhos para os anos 90.

Nos anos 90 começamos a ter o rock brasileiro recolocado na trilha de identidade, originalidade e autenticidade que tinha sido aberta nos anos 70 por artistas com um jeito muito brasileiro de fazer rock: Zé Ramalho, Alceu Valença, Raul Seixas, Rita Lee. A turma dos 90 era brilhante: Chico Science e Nação Zumbi (foto), Raimundos, Mundo Livre S/A, Skank, Jorge Cabeleira…

Mas tanto nos 80 quanto nos 90 o funil era apertado, por isso quero reafirmar que, pelo volume, nunca tivemos tanta banda boa tocando ao mesmo tempo. Elas são originais e bem melhores do ponto de vista de execução, excelência e entrega. Se você colocar o Terno ao lado do Ira!, por exemplo, é até covardia. Vi recentemente o BaianaSystem e a Nação Zumbi numa mesma noite e tive a estranha sensação de constatar que uma banda tão moderna e rompedora como é a Nação se torna velha se comparada ao BaianaSystem.

Enquanto os ingressos caros para shows em estádios de artistas longevos como U2, Coldplay e Paul McCartney se esgotam rapidamente, a maioria das melhores bandas brasileiras de rock atuais pena para encher uma casa para duas, três mil pessoas. O rock se tornou algo passadista no Brasil?

É difícil delimitar o que é rock. Se é um tipo de música guiado por guitarras, é portanto um gênero musical, e nesse sentido, sim, ele atualmente atrai pessoas que olham para suas próprias vidas e lembram dos seus “bons tempos” e jovens que buscam um “bom tempo” idealizado.

Mas o rock também é um estilo de contracultura, uma ferramenta de contracultura, e no Brasil quero crer que as diversas manifestações de rock desde os anos 50 foram invadindo as culturas regionais e ganhando contornos brasileiros, então consigo ver rock no BaianaSystem (foto), no Rincón Sapiência, no Marcelo D2, ou mesmo no Caetano Veloso, que tem atitudes contraculturais. Sendo assim, como geração acho que rock é um estilo clássico, mas não acho que seja conservador como cultura.

Porque o excelente rock feito no Brasil atualmente fala pra tão pouca gente?

Há várias discussões e possibilidades para essa resposta, e uma delas é sociológica: a sociedade está descartável, e neste sentido a descartabilidade dos artistas só reflete a sociedade na qual existe.

Também há uma questão geracional: esta é uma geração muito mais cínica do que qualquer outra, muito mais desencantada e pragmática. Não há quem queira fazer o papel de heroi ou anti-heroi, como Kurt Cobain. Aparentemente o último artista que quis encarar este papel no rock brasileiro foi o Chorão, talvez o Marcelo Camelo e o Rodrigo Amarante, e ainda tivemos uma heroína, a Pitty, mas isso faz quase 20 anos. Essa geração de 2010 parece muito descrente de que possa encarar este desafio. Podemos perceber isso pela postura dos artistas, pelas letras. Lembro de ver um show da Tulipa, que eu adoro, e de ficar muito intrigado com o verso “a ordem das árvores / não altera o passarinho”. Eu pensei, que falta de norte longitudinal! É um bom verso, mas que denota muita falta de norte longitudinal, o que é uma característica dessa geração.

Mas acho que temos um estrangulamento de oportunidades também. Em 1986 a abertura de uma novela da Globo era com “Flores em Você”, do Ira!, e hoje é com “A Hard Days Night”, “Lucy in the Sky…”. As rádios rock de São Paulo incluíam Violeta de Outono na programação, mas hoje nenhuma é capaz de tocar um som do Terno (foto), porque está muito ocupada com “Californication” ou “Que País É Esse?”.

Sem dúvida há esta questão de oportunidade, de cegueira nas programações radiofônicas, o que é uma covardia muito grande. E eu arriscaria, por último, que esta covardia tem a ver com as medições muito mais fieis que a internet proporcionou. Quando tínhamos decisões editoriais, tínhamos curadores, hoje temos métricas, sabemos exatamente o que o público quer ouvir, o que é uma pena, porque acabou a surpresa: o público só vai ouvir o que quer.