Pra não dizer que não falei de rosas (e de armas)

(por Gus Bozzetti)

Corria o ano de 1987. Em Porto Alegre.

Eu era um recém chegado a uma nova escola, devido a uma mudança de endereço, completamente deslocado em um universo onde eu não pertencia. Meus novos colegas eram filhos de empresários e políticos, as conversas giravam ao redor de surfe e automóveis, as gurias eram TODAS loiras, o esporte mais praticado e endeusado na escola era o handebol e o pessoal escutava OMD e Erasure.

Eu vinha direto do Parque da Redenção. Usava um cabelo espetado, estilo Billy Idol, gostava de futebol, histórias em quadrinhos e Kiss. Na discoteca lá de casa, sempre se escutou de tudo. Tinha samba, tango, MPB e jazz. Um tanto de cultura pop, música clássica e, claro, rock. Os discos de rock eram poucos e basicamente todos meus. Kiss, Iron Maiden e Ramones. Em seguida surgiram Talking Heads, Bon Jovi e Dire Straits. Eu gostava da energia. Eu gostava de escutar o som no talo.

Mas, ironia do destino, foi um dos colegas filho de empresário, que gostava de surfe, jogava handebol e escutava OMD, que me apresentou o disco que mudaria minha vida. Ele tinha ido passar as férias de julho na Disney e acabou trazendo uma fita cassete do Guns’n’Roses. Ele me entregou e disse: “Comprei lá porque todo mundo está escutando esses caras, mas achei uma bosta. Acho que tu vais gostar.”

A fita era com a capa liberada pela censura americana, preta com a cruz e as caveiras dos músicos da banda (não a clássica com a ilustração do Robert Willians, retratando uma mulher vítima de estupro com as calcinhas nos joelhos e seu algoz, um robô estuprador, prestes a ser punido por uma máquina assassina vingadora; essa eu comprei mais tarde em vinil). Só aí eu já estava completamente apaixonado por eles e ainda não tinha nem escutado o som.

Fui para casa, peguei meu walkman (comprado pela mãe no Paraguai) e coloquei a fita de Appetite for DestructionComeça a introdução de “Welcome to the Jungle”. Sou tomado de um misto de euforia e nervosismo. Não sabia ao certo o que era, mas eu queria aquilo. Eu queria mais. E o disco entrega. “It’s So Easy”, “Nightrain” e “Out Ta Get” Me. Já estou em chamas, o sangue fervendo e eu querendo sair para a rua e tocar fogo em alguma coisa. Com “Mr. Brownstone” e o hino “Paradise City” fechamos o lado A.

Relutei entre virar o lado do cassete ou rebobinar e escutar todos aqueles petardos de novo. Trocar o lado era mais rápido e eu não podia perder tempo. Virei a fita e lá vinham “My Michelle”, que já abre dizendo que o pai da moça trabalha na indústria pornográfica e a mãe morreu por overdose de heroína. MELDELS! Seguem “Think About You”, “Sweet Child O’Mine”, “You’re Crazy”, “Anything Goes” e “Rocket Queen”. Estou em farrapos. Parece que tomei uma surra.

Imagine que eu estava escutando TODAS aquelas músicas pela primeira vez. Não havia MTV aqui. A banda não tocava nas rádios brasileiras ainda. Era TUDO novo. Hoje sei que foi esse disco que separou a criança que eu era do cara que virei depois.

Escutar aquelas músicas e ler aquelas letras aos 14 anos, me mostraram um mundo novo, mais real, mais bruto e mais interessante do que eu conhecia. Eu não sabia exatamente o que eu estava sentindo, mas acho que era medo. Embora as bandas que eu já escutava tivessem um apelo de terror (o Eddie do Iron Maiden e as máscaras do Kiss), era tudo teatral. Aqueles caras eram reais. Eles falavam de coisas que realmente aconteciam. Eles me davam medo.

Não entro em discussões sem sentido sobre a banda ser melhor ou pior, sobre os discos que vieram depois (nem escuto eles), sobre as bizarras formações que a banda já teve, sobre a volta com os membros originais… nada disso importa. O que me interessa é que há 30 anos fui abatido pelo maior disco de rock já feito e isso me tornou a pessoa que sou hoje. Melhor ou pior do que eu seria sem ele? Tanto faz.

Depois daquele disco eu sabia que não precisava mais me encaixar na escola, nos ternos, nos trabalhos ou no mundo. Eu me encaixava ali, na selva de sexo, drogas e rock and roll que Axl e seus comparsas me apresentaram em forma de músicas.